terça-feira, 4 de abril de 2017

Análise do documentário “O Diálogo Entre Fé Cristã e Ciência no Brasil” (ABC²)

Assisti esta semana, mais de uma vez, ao documentário “O Diálogo Entre Fé Cristã e Ciência no Brasil”, produzido pela Associação Brasileira de Cristãos na Ciência (ABC²). Estava ansioso para vê-lo, porque ao ouvir alguns dos membros da ABC² a respeito do lançamento do vídeo, vislumbrei uma proposta que trataria desse tema já privilegiado com diversos livros e produções seguindo outro caminho, menos repetitivo. Fiquei muito curioso, especialmente, para saber como avaliariam os trabalhos, descobertas e realizações das ciências modernas e os estudos bíblicos. Esse meu interesse se deu porque imaginava um documentário que sairia do lugar comum da tentativa de adequar as informações, visão de mundo e compreensão das relações humanas encontradas na Bíblia às expectativas da (s) ciência (s) – inclusive, esse caminho é seguido para se confirmar a dignidade e confiabilidade das Escrituras. Por isso, posso afirmar, sem cinismo, que minhas expectativas eram as melhores.

Quando acessei o vídeo, logo no primeiro contato fiquei um pouco decepcionado com o tempo do documentário, um pouco mais de 29min – se esse não é o documento todo e há outra versão completa, não leve em consideração a maioria das ponderações a seguir. Pelo que tenho acompanhado das falas e textos de alguns dos responsáveis pelo documentário, ou ao menos daqueles com presença constante no vídeo, o diálogo “ciência e fé” é parte importante das suas preocupações. Por essa razão, esperava um material mais denso e com menos divagações. Talvez, o uso do gênero vídeo de youtube tenha forçado produzir um documentário com conteúdo menos enfadonho e curto pensando nos consumidores com pouco tempo.

Deixando de lado as minhas primeiras impressões, quero apresentar algumas reações ao documentário, as quais podem ser consideradas como questões iniciais:

1. No final do documentário fica uma sensação estranha de que o vídeo não chega (ou não trata de maneira direta) ao centro de sua maior questão: o (danado) diálogo entre “ciência e fé”. É repetido por diversos entrevistados que há uma necessidade urgente da aproximação, do diálogo, da ponte etc. Mas, no frigir dos ovos, não se indica, nem se rascunha, como seria esse diálogo, os espaços para sua realização, quais tipos de dificuldades devem ser vencidas em termos de método e aplicação de referenciais teóricos etc. Não há sequer um exemplo prático dessa tentativa. E, pensando no discurso do texto, seguindo a escola francesa de Análise do Discurso , percebe-se, pelo menos em dois ou três momentos do vídeo, a identificação (defesa) dos membros do ABC² como personagens aptos para serem os protagonistas do diálogo indicado no título do documentário. É possível se ler isso quando a voz narrativa do vídeo repete por várias vezes o mote da atual necessidade de cientistas e/ou pensadores cristãos capacitados e proeminentes cumprirem a missão do diálogo “ciência e fé”, e, concomitantemente, no mesmo enquadramento voz-imagem, aparecerem os membros desde grupo falando ou em performance de reunião. Essa minha intuição não desqualifica a afirmação que subjaz dessa análise das imagens e narrador. Creio, inclusive, na capacidade do grupo, mas me parece que se gastou menos tempo com a maneira como esse diálogo poderia ser feito do que apontando aqueles com as condições aprovadas para realização de tal tarefa.

2. Outro ponto que me levou a pensar foi o recorte para caracterizar o “científico”. Fiquei com a impressão de que para o diálogo com a fé somente as ciências naturais, ou duras (para usar uma expressão sem unanimidade), podem entrar na roda da conversa, deixando-se de lado as ciências humanas e sociais. Isso não é periférico, porque muitas pesquisas relacionadas ao comportamento humano, formação e funcionamento da cultura, relações de gênero etc. são espinhos para algumas percepções religiosas e, especialmente, quando tentam aproximá-las às perspectivas bíblicas com suas propostas, por vezes, vinculadas ao imaginário, compreensão de mundo e relações sociais do Mundo Antigo. Aqui chegamos ao link para a discussão relacionada às Escrituras e a maneira como o documentário trata esse assunto.

3. Uma afirmação que perpassa o conteúdo do vídeo – afirmação que gosto muito, especialmente por sua beleza poética – é de que as descobertas a respeito do funcionamento do cosmos, dos movimentos da natureza e o descortinar da dinâmica da vida natural revelam a grandeza e sabedoria de Deus, que é o Arquiteto de tudo isso. Nesse sentido, compreender a criação é ver a beleza do seu Criador. Ótimo, fiquei muito tocado. Contudo, essa concepção só é possível com o pressuposto criacionista e cristão, o que talvez não tocaria muito ou faria sentido para um cientista que está mais disposto em compreender o movimento dos astros e seu funcionamento do que saltar para o reconhecimento de que a divindade é causa de tudo isso. Mesmo que revele uma Inteligência original, não sei bem se nossos pares de discussão teriam sensibilidade ou isso estaria em sua agenda. Claro que para os homens e mulheres da fé esta proposta faria muito sentido e contribuiria com sua experiência de Deus, o que seria difícil esperar de cientistas não religiosos.

4. Seguindo o raciocínio do ponto 3, que é continuidade do link do ponto 2, brota-me uma pergunta: e quando essa compreensão do funcionamento natural for de encontro ou não se adequar exatamente à maneira como a Bíblia pensa o mundo ou imagina a organização do cosmos? Um dos entrevistados responde que a “ciência é o que se sabe até aqui, e o que se sabe até aqui parece estar em contradição com a Bíblia, mas a ciência avançando pode ser surpreendida”. Ou seja, ele afirma que há na ciência um espaço do “não saber” que agora, aparentemente, contradiz à Bíblia, mas no futuro terá (poderá) que se retratar por conta de novas descobertas, as quais se adequarão ou mostrarão que a Bíblia era compatível às suas afirmações. Destaca-se também na fala acima a ideia de que na ciência há um saber do “até aqui”, pois esse ainda não está completo. Sim, concordo. Mas é quase uma inocência querer que as afirmações bíblicas, em relação ao conhecimento sobre o funcionamento da natureza, já esteja no “lá”, naquele nível ao qual ainda a ciência não chegou e quando chegar dará à mão a palmatória para admitir como a Bíblia sempre foi o manual que a ciência precisou consultar, mas por rebeldia não consultou. Não sei bem se tal perspectiva seja inteligente. É um tiro no próprio pé. Creio ser muito mais honesto e piedoso admitir que os textos bíblicos foram escritos em um tempo em que a visão de mundo, a compreensão do funcionamento do cosmos e a percepção da phisis (natureza) eram outras. Não vejo como produtivo, por exemplo, tentar adequar às ciências da natureza em geral as afirmações das Escrituras, pois, obviamente, pertencem ao Mundo Antigo, que possuía outro paradigma de conhecimento e diferentes mediadores de acesso à realidade. Isso não quer dizer que a Bíblia seja falsa, mentirosa, ultrapassada ou não sirva para nossa vida hoje, mas simplesmente não precisa corresponder ou se adequar às expectativas das ciências modernas. Além disso, o texto bíblico, para defender sua importância, não tem o dever de compreender o mundo como as ciências compreendem. A garantia do valor de inspiração das Escrituras não se estabelece através da compatibilidade com as afirmações sobre o mundo expostas à luz do paradigma de conhecimento da Modernidade, mas por sua potencialidade de revelar Deus e sua Palavra.

5. No mesmo enquadramento do vídeo, outro entrevistado, logo depois do citado no ponto 4, afirma que “nós precisamos aproximar a Bíblia da ciência, mas não juntar as duas coisas (...). (...) Devemos tratar como trilhos, próximos o suficiente para que o trem da existência passe sobre eles, mas não tão próximo ou tão distantes que o trem descarrile”. Com uma perspectiva diferente à fala anterior, estaria essa metáfora defendendo que tanto a Bíblia como as ciências modernas exercem seus saberes cada qual em seu espaço de conhecimento? Ele intentou afirmar que o ser humano tem nas ciências e na Bíblia duas possibilidades de explicar a realidade sobre as quais a humanidade segue seu caminho dando sentido à vida? Se sim, as duas me parecem interessantes, porque revela como os dois saberes possuem traços que não se misturam, e são possibilidades separadas/diferentes de compreensão do mundo. Isso impediria fazer com que uma se rendesse a outra ou as duas se misturassem como se estivessem falando da mesma coisa, mas com palavras diferentes (Deixe-me fazer uma divagação neste ponto. Dizer que a ciência e a Bíblia falam da mesma coisa com palavras diferentes é deixar de lado a grande obviedade: as ciências modernas funcionam sobre um paradigma de compreensão da realidade totalmente outro daquele que está nas bases de qualquer texto e discurso produzidos no Mundo Antigo, inclusive da Bíblia).

6. Seguindo a discussão do ponto 2, desdobrada nos pontos subsequentes, é inegável que as ciências humanas, há algum tempo, servem às ciências bíblicas para compreensão dos textos. Muitas pesquisas são realizadas com referencias teóricos desses campos disciplinares, os quais dão luz aos contextos da Bíblia e promovem diversas releituras. Por outro lado, a Bíblia cristaliza relações e lugares sociais, concepção a respeito do corpo etc. que as ciências da cultura demonstram sua transitoriedade histórica.

7. Ao pensar, a partir do documentário, a respeito do diálogo entre ciência e fé, aqui especificamente entre a Bíblia e as ciências humanas, eu faria algumas perguntas ao pessoal da ABC²: até que ponto as perspectivas modernas a respeito das relações de gênero, funcionamento social etc. poderão “dialogar” com textos bíblicos que se revelam, em vários lugares, incompatíveis aos horizontes das propostas dessas ciências desenvolvidas para o estudo do dado social? Como as ciências sociais, por exemplo, comportar-se-iam nesse diálogo diante de textos bíblicos com propostas contrárias aos estudos culturais a respeito de formação étnica, questões de gêneros etc.?

Acho que as ciências (duras ou moles) foram, são e sempre serão úteis aos estudos bíblicos e à fé cristã. No entanto, depende muito da maneira como tratamos Bíblia, fé e ciência. Definitivamente, interesses apologéticos de quaisquer dos dois lados dos pares resultará em pouca contribuição.

Como seria, então, esse diálogo na prática? Esperava alguma indicação no documentário. Eu, pelo menos no trato com a Bíblia, não espero que o texto sagrado responda aos anseios das ciências modernas, e a tenho como uma proposta de olhar sobre o mundo, a qual precisa de procedimentos interpretativos equilibrados para produzir vida e salvação.

terça-feira, 7 de março de 2017

Não venha com conversa fiada! Sim, no Brasil, o preconceito ainda mata e silencia!


Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), no artigo 4º, é dever, e não opção, da família, da comunidade, da sociedade em geral e do Poder Público (resumindo: É responsabilidade de todos/as nós!) assegurar (ou seja: tornar possível, fazer acontecer, efetivar) à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade (!), os direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária. E, ainda, em Parágrafo único, o ECA determina para todos nós o dever de priorizar a efetivação da proteção e socorro, em quaisquer circunstâncias, a preferência na formulação e na execução das políticas sociais públicas e a destinação privilegiada de recursos públicos relacionados à infância e à juventude. No entanto, este lindo texto de promoção de direitos e exigências de deveres não se aplica, na prática, às crianças pobres e deixadas às margens. Isso ficou bem claro no caso do menino João Vitor, de apenas 13 anos, morto em Vila Nova Cachoeirinha, em frente de um Habib’s da zona norte de São Paulo. Esse crime escancara a face mais cruel da lógica preconceituosa do nosso país. Vitor foi arrastado, agrido, violentado, desumanizado e morto, no meio da rua, como se fosse um lixo dispensado na sarjeta. A barbárie é ainda maior, porque João Vitor (e faço questão de repetir seu nome em todo texto!) estava naquele Habib’s mendigando o que lhe era de direito: alimentação!

O júri informal e imoral foi estabelecido imediatamente. Ali, na rua mesmo, o Habib’s e seus funcionários, usando do princípio do preconceito, decretaram para Vitor a pena máxima – a mesma que é aplicada diariamente a outras crianças pobres e jovens negros do nosso país –, o veredito de morte. Qual o crime? – Ser catador de recicláveis, ser pobre! Nas palavras de seu pai, Marcelo Fernandes de Carvalho: “Ele teve uma morte que não se faz nem com animal. Meu filho era humilde igual eu, catador de lixo. Ele pedia, mas não roubava nada de ninguém. O moleque foi espancado por causa que estava pedindo um real para comer um lanche”.

Depois, tornando o caso ainda mais trágico e vergonhoso, a informação da Sra. Sílvia Helena, testemunha ocular, foi desdenhada e desacreditada. Mesmo sabendo detalhes do crime, ela não foi ouvida. A razão? Ora, a mesma que matou João Vitor: ser catadora de recicláveis, ser pobre. Neste país, onde se torna culapado/a o violentado/a, se naturaliza o sistema de má distribuição dos bens, se valoriza o sucesso de poucos à custa da ocultação do de-sucesso de muitos e se defende a lógica social darwinista/meritória, catar papel e pedir comida é crime inafiançável e prova irrefutável de culpa. Então, não venha com conversa fiada! Sim, no Brasil, o preconceito ainda mata e silencia!
O sacrifício do João Vitor é símbolo da nojenta, indigna e maligna/diabólica naturalização da discriminação contra pobre, preto, mulher, índio, nordestino, homossexual e outros grupos desumanizados, os quais, por vezes, são violentados e mortos por causa de sua cor, gênero, etnia ou orientação sexual.

Contudo, a fé que anima minha caminhada e ajuda-me interpretar meus dias, é alimentada por narrativas a respeito do Deus que nasce entre excluídos e lançados às margens. Ele é testemunhado por pastores, os mesmos que não teriam voz em um júri romano. Ou seja, o Nazareno recém-nascido foi proclamado por “Silvias”, catadores de resíduos. Nele, silenciados ganham voz. O Mestre, aquele que vigora a esperança e dá vida e razão à experiência pastoral, exige-nos indignação, compaixão e movimentação diante dessa “patologia social”, para que usemos nossa influência, força relacional, articulação política, presença pública e contados na criação de espaços conscientizadores e transformadores, os quais promovam ações preventivas e estruturantes contra a violência, o preconceito e desumanização. 

Bem-aventurados são os que têm fome e sede de justiça. Bem-aventurados os que não aceitam passivamente o tenebroso enredo da morte de João Vitor!

terça-feira, 8 de março de 2016

Até que seja um dia de comemoração... dia Internacional da Mulher!


No primeiro livro da Bíblia Hebraica (Gn 1,27), o projeto das relações de gênero, com linguagem originária, já é apontado. Homens e mulheres, sem desequilíbrio de direitos e valor, partilham a dignidade da imagem da eternidade: “à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”! O incidente de 8 de março, um dos mais vergonhosos da nossa história, que gerou esta memória em nosso calendário, foi um exemplo claro de descaminho de Gn 1,27. Infelizmente, as justas reivindicações das mulheres operárias de Nova Iorque, que geraram a intervenção assassina no fatídico episódio de Nova Iorque, em 1857, ainda não se efetivaram inteiramente. Impressionante, as mulheres ainda hoje amargam, segundo alguns dados, a realidade de ganharem 30% a menos do que os homens, mesmo que tenham em média melhor formação. O caso das operárias da fábrica da Duloren, em Vigário Geral, no Rio de Janeiro, só reafirma essa condição. A costureira Silvana, que trabalhava há quatro anos na fábrica carioca, testemunha que “em caso de doença, se a gente pegar atestado por mais de três dias, perdemos o direito à cesta básica”, que era de 100 reais! As pesquisas nos mostra, nos dez primeiros meses de 2015, do total de 63.090 denúncias de violência contra a mulher, 31.432 corresponderam a denúncias de violência física (49,82%), 19.182 de violência psicológica (30,40%), 4.627 de violência moral (7,33%), 1.382 de violência patrimonial (2,19%), 3.064 de violência sexual (4,86%) e 3.071 de cárcere privado (1,76%). E pior, dos atendimentos registrados pelo Ligue 180, 77,83% das vítimas possuem filhos (as) e que 80,42% desses (as) filhos(as) presenciaram ou sofreram a violência. Os exemplos e dados de negação de direitos poderiam ser empilhados, os quais demonstram que não é uma data para ser festejada, porque os desmandos, impropérios e violações desumanizadoras continuam escancarados diante de nossos olhos.

Enquanto as filhas do criador não tiverem seus direitos garantidos ou forem vítimas de violências, o dia internacional da mulher não será uma celebração, mas significará impulsão para luta. E, como povo de fé, não podemos nos acomodar e deixar de lado a pulsão profética. O profeta Isaías, ao ler o seu tempo e perceber as arbitrariedades dos membros da cidade, os quais se escondiam atrás de ritos frios da religião, denunciou: “De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios, diz o Senhor? [...]quando estendeis as vossas mãos, escondo de vós os meus olhos; e ainda que multipliqueis as vossas orações, não as ouvirei, porque as vossas mãos estão cheias de sangue [...]”. E com voz estridente ele afirma o que deseja o Deus do Éden: “Aprendei a fazer o bem; procurai o que é justo; ajudai o oprimido; fazei justiça ao órfão; tratai da causa das viúvas”. Por isso, não podemos descansar enquanto a justiça, desde os salários até o respeito público, seja feita para nossas irmãs!

Temos, minha esposa e eu, uma menininha de quatro anos. Seu sorriso e seu abraço são mais terapêuticos do que qualquer outra expressão de beleza que o mundo possa proporcionar. Ela e todas as meninas precisam viver em um mundo onde seus sonhos não sejam tolhidos por não serem meninos, nem suas intimidades expostas por aqueles que desejam mais uma cena de ridicularização. Precisamos construir um lugar onde ela e as demais poderão ter sua dignidade garantida e não estejam à mercê do vexame cotidiano das piadinhas desumanizadoras. Minha filha e todas as filhas precisam sentir que seus corpos não são objetos e independentemente da cor, classe ou etnia terão igual acesso aos bens que lhe são de direito. Enquanto isso não for garantido, não haveremos de celebrar, mas militar, para a glória Daquele que as criou.

Por aquilo que 8 de março proclama, até que seja realmente um dia de comemoração!

sábado, 2 de janeiro de 2016

Receita para o Ano Novo!


Receitas não servem para facilitar nossa vida. Pelo contrário, instigam-nos a tornarmos “coisa” o indicado no papel: o bolo tradicional, guardado de geração em geração pela matriarca e chefe da cozinha das nossas memórias; o doce incomparavelmente delicioso, como o qual não há outro qualquer igual; ou o prato que se aprende com uma anotação rápida plagiada de qualquer fonte do Google. Receita, com certeza, mais nos desafia do que afrouxa.
Desta forma, falar de receita para algo na vida não poderia ser diferente, será sempre desafiador! Ela nos convida a percebermos melhor detalhes que nos passam despercebidos e esquecermos ou colocarmos nas extremidades da área de nossas preocupações alguns pontos que entronizamos. Ora, não seria exatamente isso que Jesus dos evangelhos sempre fez? Ele o tempo todo exortava seus ouvintes a observarem pessoas, práticas e escolhas não muito valorizadas; como, também, insistia para que deixassem de lado outras que lhes pareciam tão centrais. Rondava-os, na perspectiva do Nazareno, o tempo todo, a possibilidade de soprarem moscas e engolirem camelos.
Contudo, a receita do mestre não era recheada de expressões de autoajuda, como as verborragias dos “passos para a vitória”. O auxílio do receituário de Jesus estava exatamente em não facilitar a nossa vida (porta estreita, caminho apertado etc.). É nesta perspectiva que acredito poder apresentar uma receita para o ano que está às portas e batendo – e mesmo que não abramos ele dará um jeito de entrar.
Para isso, convido o poeta mineiro, Carlos Drummond de Andrade, para me ajudar nesta tarefa. Ele define que o ano que chamamos de novo precisa ser belíssimo, sem comparação com todo o tempo já vivido (mal vivido talvez ou sem sentido), cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, mas novo nas sementinhas do vir-a-ser. 
Ele aponta que deve ser novo até no coração das coisas menos percebidas (a começar pelo seu interior), novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota, mas com ele se come, se passeia, se ama, se compreende, se trabalha. Este novo, para o escritor mineiro, é sem precedentes, único e transcendente!

Felizmente, o texto não somente coloca água em nossa boca, ao descrever este Ano que desejamos ter. Pelo contrário, ele lista um conjunto de detalhes em sua receita que devem ser descartados ou colocados em segundo plano por aqueles que esperam esse abençoado 2016: “não precisa fazer lista de boas intenções, para arquivá-las na gaveta; não precisa chorar arrependido pelas besteiras consumidas; nem parvamente acreditar que por decreto de esperança a partir de janeiro as coisas mudem e seja tudo claridade, recompensa, justiça entre os homens e as nações, liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, direitos respeitados, começando pelo direito augusto de viver”.
Para o poeta é muito simples, “para ganhar um Ano Novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo novo”. Ele ainda adverte: “É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre”. 
Para que 2016 seja realmente um ano novo, não adiantam afirmações triunfais de que as coisas serão diferentes, nem resolve fazermos ritos e gritos de empoderamento. Nós é que devemos tornar o próximo ano a realização do Novo que cochila e espera desde sempre em nós. E para isso, basta-nos levarmos a sério a afirmação de Jesus de que odres velhos não suportam vinho novo!

Por isso, crie espaços para novos procedimentos e renovados modos de operação, desde a arte do falar às estratégias das escolhas. Não permita que as mesmas más experiências sejam vivenciadas por caminhos diferentes. Abra sua vida para o que realmente vale a pena, e o evangelho é um (o) indicador excepcional. Perdoe sem reservas, para que novos relacionamentos surjam de antigas relações. Olhe menos para as limitações das pessoas e deixe que suas qualidades te proporcionem momentos de crescimento e aprendizado. Destrone-se e destrua o reino das vontades pessoais (vontade de poder?), porque são odres velhos, e permita que o Senhor e o Seu Reino sejam sempre a novidade e o devir na tua história.
Que 2016 seja um ano Feliz e realmente Novo! 

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

NATAL


Natal é o Deus que nasce de mulher pobre, em berço não esplêndido e nas extremidades de uma terra sem expressão. Confundem-se as expectativas apoteóticas quando o sinal para seu reconhecimento descredencia a pompa das belas roupas e mostra-se em panos simples. É estranho aos desejosos por poder, quando as primeiras testemunhas e arautos de sua chegada são pastores e ovelhas. O Deus-menino, nas linhas dos evangelhos, não se adéqua às convenções e esperadas feições da chegada de um rei. Pelo contrário, não se preocupa com as muitas honrarias comuns aos monarcas, muito menos faz questão do tumulto e do alarde das trombetas. A sua glória manifesta-se na fragilidade de um bebê.

Interessante como a simplicidade de Belém é presságio das suas futuras decisões. A manjedoura acolheu um Deus que acolheria àqueles sem acolhimento; cedeu espaço ao único imperador que as extensões de suas terras não seriam percebidas pelos vassalos acumulados, mas pelos homens e mulheres que aceitassem um projeto chamado Reino dos Céus.

O nosso Deus não se dá a conhecer com o espetáculo. Pelo contrário, escolhe traduzir a eternidade nas amarras da vida. Eis aí o milagre, o infinito na finitude, o inefável nas teias da linguagem, o imensurável na fronteira humana, o Senhor dos céus e da terra existindo em um menino. 

O anjo, especialista das coisas celestiais, confirma o paradoxo: aquele pequeno ser é o salvador, o Cristo, o Senhor. O coral da eternidade deu as boas-vindas anunciando a paz na terra e o Seu favor para com os homens. O céu e a terra se misturam, fazendo do mundo palco para o encontro da humanidade com a divindade. Assim, na história, Deus se tabernaculou e sua glória foi contemplada.

E o que faremos, pois? Resta-nos tornar nossa vida, escolhas e história uma manjedoura!

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Vinho velho em odres velhos: os evangélicos e o ano eleitoral






A parábola do vinho novo em odres velhos é citada em todos os evangelhos sinóticos. Ela é tão comum que também está no evangelho de Tomé, um texto dos cristãos gnósticos, não canônico, que para alguns é até mais antigo do que os canônicos (Crossan) – mas isso é outra história. Nesta parábola, sendo bem sucinto para não ser cansativo, Jesus mostra – usando no mesmo texto a imagem de retalho novo em roupa velha – a não adequação de seus discursos e propostas à estrutura religiosa na qual estavam os líderes judeus: não é possível vinho novo em odres velhos. O vinho novo, por conta de sua fermentação, estouraria o recipiente antigo feito de pele de animal, o qual não poderia mais dilatar. Vinho novo não cabe em odres velhos! Ou muda o odre ou não tem como receber a deliciosa e importante bebida do Mundo Antigo. A maneira como a Lei era interpretada, vivida, aplicada; o modus operandi da política, do sistema religioso, das relações Roma e Jerusalém vivido pelo judaísmo palestino não comportariam/suportariam o novo vinho do reino anunciado por Jesus.


Bom, o que isso tem a ver com a questão das eleições deste ano e os evangélicos? Em uma postagem escrevi que “tenho a sensação de que a participação do mundo evangélico, na caminhada para as eleições deste ano, será uma das mais desastrosas e vergonhosas desde a redemocratização!”. Por isso, disse que “já estão me dando arrepios as falas na mídia de algumas lideranças gospels a respeito das alianças ensaiadas e dos nomes lançados”. Em minha modesta opinião, a desastrosa e infeliz participação será o resultado natural do como estão entrando no processo, porque usam os mesmos instrumentos da velha política: lógica do “toma lá da cá”, que têm em suas bases o mais chulo do clientelismo. Além disso, algumas lideranças chamam de “presença evangélica” ou “grupo de defesa da família” o que é na verdade é uma espécie de criação de oligarquias evangélicas. Os evangélicos, que por um bom tempo, especialmente os pentecostais, disseram que política é coisa do diabo, estão agora preenchendo espaços utilizando-se do “jeito velho”, da conhecida velha política. Aquela carreirista, que se movimenta pelas brechas das leis eleitorais, quando não as burlam. A mesma, que troca favores com empresários e no fim precisa pagar pelo serviço/apoio. A tão conhecida, que alimenta projetos pessoais e não interesses ideológico-partidários. A tal da “representação de nós mesmos”, na qual o “nós” são sempre os “mesmos”. A velha política dos que buscam aliados não por sua postura e capacidade de representação dos interesses do povo, mas pelo seu poder de financiamento, sua influência, suas relações com quem tem mais acessos, pelo seu lobe! Por isso, com facilidade você encontra líderes evangélicos comprando votos; usando espaços não ilegais, mas imorais; prometendo assessoria parlamentar, secretarias, cargos de gabinete em troca de apoio; vendendo favores futuros; usando caixa dois para campanhas; comprando santinhos com dinheiro indevido; filiando-se aos partidos por conta da legenda e não por seus projetos etc. É vinho velho em odres velhos. Sei que não são todos. No entanto, se é difícil separar o joio do trigo – sendo uma tarefa para anjos –, pior é o vinho velho de vinho novo! 

Por isso, como é vinho antigo em odres já dilatados, as coisas acontecem sem muita tensão. Os projetos ganham votos, são eleitos, os interesses realizados, a vontade de poder alimentada e tudo fica intacto e do jeito que sempre esteve. E assim, o povo vai bebendo dos velhos odres o velho vinho, e os irmãos tendo a sensação de que Deus está abençoando a nação com crentes no congresso nacional. 

Infelizmente, como acerta o Evangelho de Lucas, quem prova do velho, especialmente o que se beneficia dele, diz: “o velho é que é bom!”.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Discurso de Defesa de Qualificação da Tese

     
Depois de muito tempo sem postar nada no Blog, retomo as atividades. Espero que este post sirva de motivação para continuar colocando textos aqui... 
      Quero disponibilizar neste post meu discurso de qualificação na UMESP, proferido nesta segunda-feira (02/06/2014) para aprovação do projeto e 1º capítulo da tese. Este texto li para a banca formada pelos professores doutores Paulo Nogueira, Paulo Garcia e Helmunt Renders. 



Discurso na defesa de qualificação da tese:


          O Título de minha tese é: “‘Quando os Espíritos saem do Abismo’. O Estabelecimento Narrativo do Terror Escatológico em Apocalipse 9,1-21”. Este trabalho é resultado de longa caminhada no grupo de pesquisa Oracula e de diversas discussões metodológicas neste espaço aventadas para leitura e interpretação da cultura e de textos. Por isso, mesmo que eu responda por todas as informações e afirmações expostas neste projeto, devo indicar o contexto no qual ele se insere. 
Durante um bom tempo o livro do Apocalipse foi lido como uma espécie de linguagem cifrada, através da qual o visionário teria empreendido o alívio das angustias e gerado esperança para cristãos que viviam perseguições no império Romano. Especialmente na exegese latino-americana, o livro foi lido como um texto que reflete ou nele subjaz, realidades de opressão e até mesmo martírio sob a coroa de Domiciano. Nesta perspectiva, o Apocalipse seria um escrito para ajudar os seguidores de Jesus a manterem a fé em meio à desgraça, com a promessa de que a iminência do fim encerraria uma grande tribulação. Este tipo de interpretação, resultado natural dos referenciais histórico-sociais, levou, e ainda leva, muito a sério o mundo romano pintado pelo texto.
Não podemos negar as muitas contribuições que esta leitura nos legou. Contudo, precisamos levar em consideração que vivemos uma mudança de paradigma nas pesquisas sobre o acesso à realidade. A ordem social não existe como algo dado, simplesmente para ser observada com corretas ferramentas históricas. O que se faz é a interpretação, logo, ficção da realidade.
  Por isso, nos últimos anos a exegese tem passado por renovações permitindo ser interpelada por referenciais teóricos expostos pelas ciências humanas em geral, semiótica e teorias literárias, o que conduziu à aproximação ao Apocalipse como instrumento de persuasão retórica, que lida com imagens para criar mundos e interpretar a realidade.
Os trabalhos de Leornad Thompson, por exemplo, levam em consideração, de maneira radical, o Apocalipse não como reflexo do mundo romano, mas criação discursiva deste. Ele mostra que o livro é rico enquanto documento literário. Através da linguagem poética e imaginária, o visionário cria um mundo que não pode ser interpretado simplesmente como alegoria do tempo histórico-social ao qual se refere. Como diria Umberto Eco em seu “Da Arvore ao labirinto”: significado e referência precisam ser diferenciados, mesmo no nível de dicionário. Quando o profeta faz comentários a respeito da vida dos membros e não membros da igreja, ou sobre os judeus da “sinagoga de satanás”, quando cita os nicolaitas ou indica coisas relacionadas a Roma com a Grande Babilônia, não está simplesmente fazendo uma descrição em código universal observável da realidade social dos Judeus, dos cristãos ou do Império Romano; na verdade, a linguagem cria um simbólico universo que transforma e representa a realidade social em termos de sua própria observação. Por isso, o “real” do texto de João se encontra na interconexão de sua linguagem e não em qualquer correspondência externa no mundo romana[1]. Desta forma, há um distanciamento entre a realidade e o discurso; Roma e o livro do Apocalipse estão no mesmo espaço, mas construídos retoricamente.
No livro do Apocalipse, o grande problema não está nas perseguições, mas na retórica do Império e a interpretação do visionário. O discurso de paz e a prosperidade da sociedade romana, no ponto do vista do visionário, não pode ser celebrado pelos cristãos fiéis. No Apocalipse, o enunciado de ordem política-econômica-estética-social de Roma é totalmente enganoso, pertence ao reino satânico, mesmo que isso não se perceba no cotidiano dos cidadãos. Eis aí a grande contribuição da linguagem apocalíptica, que possibilita o acesso a outros níveis de realidade.  Assim, o conflito está na perspectiva de João e não na sociedade. E, ainda, a crise é uma orientação própria do gênero apocalíptico, e não necessariamente a realidade social.  A situação de crise é mais um “topos” do gênero apocalipse[2] do que reflexo histórico-social.
Desta forma, devemos tratar o Apocalipse como um contradiscurso, que desqualifica retoricamente, usando os “topoi” próprios do gênero, para mostrar que o discurso de ordem e paz não são reais, pois por intermédio de meios autorizados, como a visão, interpreta-se o mundo Romano de maneira completamente diferente. A linguagem de monstros e mártires diz: “o que há é caos e perseguição prevista”! O livro do apocalipse torna-se nesta leitura uma estratégia discursiva para interpretar o mundo e criar expectativas sobre os narratários.
São com estes pressupostos que leremos a micronarrativa 9,-21 do livro do Apocalipse e sua sequência narrativa das sete trombetas. Nela perceberemos suas estratégias narratológicas para interpretação e criação de terror escatológico sobre seus leitores implícitos, seus narratários. O texto, para construção retórica de caos e desordem da realidade, pinta um quadro de seres que sobem e descem, fala de figuras hibridas, insere uma interessante discussão sobre a impureza, e como um verdadeiro instrumento de terror, usa linguagem cheia do grotesco, que serve, como dizem os críticos literários, como desconfiguração carnavalesca da realidade, tratando-a como aberração.
Se devemos observar a obra como estratégia retórica – claro, sem perdermos de vista sua origem na experiência visionária – é de fundamental importância colocarmos na discussão as intuições da semiótica da cultura, das quais legamos os conceitos de texto, cultura e memória comum; como também seus corolários nos trabalhos dos Assman, os quais nos ajudam na observação dos movimentos das memórias na cultura, o que poderíamos chamar de “movimentos semióticos das memórias”. Com estes referenciais, podemos superar a ideia de contexto histórico para pensarmos o contexto das memórias na tessitura da cultura, a qual é formada por textualidades que estão em relações infindáveis e vivem explosões semióticas constantes. 
Segundo a semiótica da cultura, o texto é texto da cultura; ou seja, ele é como microcosmo do mundo dos textos que circulam na semiosfera. A Semiosfera é um conjunto de textualidades, é algo formado por uma rede (interminável) de interpretações; é a esfera da comunicação; é uma rede processual de signos ou semiose; é o lugar de interconexões. Este conceito revela a dinâmica da cultura que é a formada por textos, os quais são perenizados, tornado-se o cânon da cultura (como diriam os Assmann) e formam a chamada “memória comum”. Assim, a cultura pode codificar e decodificar mensagens de períodos diversos, traduzindo-as em novos sistemas de signos e de textos, agindo como uma engrenagem complexa de seleção das informações mais necessárias[3]. Por isso, as culturas, enquanto textos, sempre se enriquecem recíproca e constantemente, pois é circular.  
A “memória comum” preserva textos em nível diacrônico, que servem para interpretações dos textos da cultura que circulam em nível sincrônico. Nossa hipótese é que a memória comum através da qual o livro do Apocalipse interpreta os textos da semiosfera grego-romana, preserva a literatura apocalíptica. Ou seja, este conjunto de textos da cultura forma um instrumento heurísticos para interpretação do texto/discurso greco-romano de paz e ordem. Por isso, percebemos que o livro de 1 Enoque e suas traduções na cultura judaica e cristã, compôs seu o cânon da memória comum. Neste sentido, o Apocalipse de João se insere de maneira discursiva no conjunto de memórias por ele retomadas e organizadas no eixo do terror escatológico, servindo de expressão discursiva de olhar sobre o mundo Romano, através do qual se nega em última análise a ordem e paz (Pax) da propaganda imperial.
Em suma, para a interpretação do livro do visionário João, o conceito de memória comum ou memória cultural ajudará na observação da reconstrução das memórias apocalípticas, presentes na construção do quadro referencial do terror escatológico produzido como um contradiscurso, que nega a ordem proclamada pelo império romano e seus mitos/discursos.  Além disso, perceberemos como a literatura enoquita, em suas releituras, esteve sempre na interação “cânon x arquivo” na memória comum/cultural. Podemos, neste intento, afirmar que o Apocalipse interpretou os textos da cultura que o cercavam a partir deste conjunto de textos da semiosfera judaico-cristã (greco-romana) para denunciá-la, e mais do que isso: inventá-la narrativamente.
    Para isso, pretendemos seguir um caminho que nos parece mais eficiente. Como temos usado alguns conceitos vinculados à teoria da memória e semiótica da cultura, no início do trabalho pretendemos organizar o arcabouço metodológico que faça convergir estes referenciais em diálogo com as ferramentas da Narratologia. No início, faremos uma exposição do conjunto dos referenciais teóricos para organização metodológica e caminho heurístico. Como seus conceitos estão muito presentes na exegese, começaremos expondo suas intuições, aplicabilidade e limites.
Munidos com as intuições metodológicas acima expostas, pensaremos na literatura apocalíptica como conjunto de textos da cultura judaico-cristão e mostraremos como mitos de seres causadores de impurezas e aprisionados da tradição apocalíptica fixaram-se no cânon desta cultura e serviram de pano de fundo semiótico para organização de mundo e interpretação da cultura do Séc. I.
Depois, proporemos a observação das imagens caos e ordem na construção discursiva do Apocalipse, as quais estão em relação dialógica e intertextual no Ap 8-10, para percebermos o livro como instaurador de caos através da linguagem grotesca e monstruosa para estabelecimento discursivo do terror.
A partir de esse olhar sobre o Apocalipse, analisaremos exegeticamente a micronarrativa (Ap 9, 1-21), utilizando instrumentos da Narratologia em diálogo com a exegese tradicional para observação a ideia de tempo, espaço (geografia apocalíptica), enredo, personagens e quadros narrativos. Neste ponto, indicaremos a presença dos seres aprisionados e suas relações com o discurso escatológico da micronarrativa em diálogo com a macronarrativa. Por isso, voltar-se-á às tradições que provavelmente serviram as memórias de queda celestial, aprisionamento de seres e a topografia escatológica ao mundo judaico-cristão. Para tal feito, primeiramente, mostraremos a presença do Mito dos Vigilantes na tradição judaica e cristã e, assim, perguntaremos pela presença da memória dos seres aprisionados na semiosfera judaico-cristã. Desta forma, saberemos como o Mito dos Vigilantes tornou-se uma espécie de texto de centro da cultura e como suas memórias foram traduzidas para estas tessituras discursivas, e em que nível estavam ligadas às perspectivas escatológicas de julgamento e punição.
Assim, este trabalho pode ser importante não somente por suas intuições a respeito do livro do Apocalipse, tão estudado nos últimos anos, inclusive em nosso programa, mas também pela aplicação da Teoria da Memória e Semiótica da Cultura, o que tem sido uma preocupação atual do Grupo de Pesquisa Oracula e de pesquisadores como Paulo Nogueira.   





[1] THOMPSON, Leonard. A Sociological Analysis of Tribulation in the apocalypse of John. In: Semeia 36 (1986): p. 147-174. p. 147. 
[2] THOMPSON, Leonard. The Book of Revelation... p. 175.
[3] FERRARI, Mônica Rebecca. A memôria da cultura e a memória na mídia em produtos autovisuais infanto-juvenis. In: MACHADO, Irene (org.). Semiótica da Cultura e Semiosfera. São Paulo: FAPESP/Annablume, 2007, p. 255-266, p. 256.  

terça-feira, 30 de abril de 2013

“Cuidado com Elas”. Misoginia Cósmica na Literatura Judaico-cristã (Part. III)






Com grande demora, posto aqui a última parte da série de textos "'Cuidado com Elas'. Misoginia Cósmica na Literatura Judaico-cristã". 

"Sem as mulheres não há demônios"!  

          A importância dada à narrativa dos Vigilantes se percebe na presença desse mito em grande parte da tradição judaica e, posteriormente, cristã[1]. Seguindo seus rastros, alguns textos podem ser mapeados para percebermos como as imagens desse mito influenciaram para o medo e ódio contra a mulher.
Um texto judaico ainda bem próximo ao livro dos Vigilantes é Jubileus (Sec. II a.C). Nesse texto é recontada a história do Gênesis, e novamente aparecem os anjos seduzidos pela beleza das mulheres e o nascimento de gigantes como resultado de relações sexuais. Por isso, a maldade aumentou na terra e Deus mandou o dilúvio. Após o dilúvio Noé ora a Deus contra os demônios (“os demônios poluídos”), os quais estavam desviando, cegando e matando os seus netos. Assim, o Senhor ordena aos anjos que os amarrem, e Mastema, um seu líder, pede a Deus que deixe com ele um décimo dos demônios. Mais uma vez, por causa da sexualidade feminina a maldade e os seres demoníacos invadem a terra.
Em Qumran também o mito é lido e ele aparece no Documento de Damasco, 4Q180, 1Q23 e outros[2]. A mesma lógica simbólica é preservada em Qumran ao falar da queda dos anjos e a sua relação com as mulheres sexualmente perigosas. No Documento de Damasco, em especial, é criticado o olhar luxurioso e a obstinação contra Deus. Outro texto judaico que é influenciado pelo mito dos vigilantes é o Testamento de Rubens. Nele é instruído fugir da mulher, pois elas haviam enfeitiçado os Vigilantes: “Proibi vossas mulheres e vossas filhas de enfeitarem a cabeça e o rosto! Pois toda a mulher que recorre a esses ardis atrai sobre si o castigo eterno. Foi desta maneira que elas também enfeitiçaram os Guardiões antes do dilúvio” (Test. Rub. 5, 4-5)
No Testamento de Rubens novamente o corpo e a beleza da mulher são vistos como perigos e causadores de sedução de anjos necessitando ser domesticados. Por isso, as mulheres não deveriam se embelezar. Assim, se sexualidade é vista como um instrumento de poder e usada ardilosamente pelas mulheres, legitima-se a dominação patriarcal para segurar a ordem social e cósmica.
A literatura bíblica neotestamentária também depende diretamente, em algumas partes, das imagens do Mito dos Vigilantes[3] (Judas 6; 1 Pedro 3,18-21; 2 Pedro 2,4). Contudo, nos fixaremos em sua influencia para construção da imagem negativa da mulher.
A Primeira Carta aos Coríntios traz uma passagem bastante obscura, mas que se clareia ao conhecermos o Mito dos Vigilantes. Diz o texto: “Sendo assim, a mulher deve trazer sobre a cabeça o sinal da sua dependência, por causa dos anjos” (11,10). Soltar os cabelos na tradição judaica e romana era extremamente libidinoso[4]. Por isso, Paulo pede para esconder esta parte erótica da mulher, porque poderia seduzir os anjos, como aconteceu em tempos primordiais, como dizia Mito dos Vigilantes. Ou seja, mais uma vez a mulher e sua beleza tornam-se ameaças à ordem estabelecida nos céus. 
Nas cartas pastorais aparece a mesma ideia.  Em 1 Tm 3,11 a mulher não deveria ser maldizente, que em grego provém a mesma palavra para diabo. Em 1 Tm 2,12-15, mesmo que se remonte a narrativa de Adão e Eva, ainda trás a figura perigosa da mulher, por isso deveria ficar calada, e se limitar a maternidade, para sua salvação. Em 1 Pe 3,3-4 como é feito no Testamento de Rubens e 1 Tm 2,9-11, os enfeites e adornos são colocados em segundo plano, para que a modéstia e submissão sejam prioridades. Vemos o controle do corpo da mulher representado no discurso em torno da roupa e a ornamentação, fruto do pavor à potencialidade sexual da mulher. 
Em Ap 9, 8 os terríveis gafanhotos tinham os cabelos de mulher. Mesmo que aqui se refira à opressão imperial, é a imagética da mulher e seu poder sexual que está na linguagem simbólica.
Outro texto da tradição judaica é o livro do  Séc. II d.C, 2 Enoque. Neste, fala-se dos grigori, que são os Vigilantes em versão grega. No texto, as mulheres são responsáveis pelos pecados dos anjos. Em 2 Enoque de forma direta a mulher é culpada pela queda e desgraça dos seres celestiais, pois tinham nas mãos o poder da dominação pela beleza.
Esta mesma imagem da sexualidade e da mulher influenciou teólogos cristãos dos séculos posteriores como Justino Mártir, Irineu, Tertuliano e outros. O próprio Tertuliano, tendo a imagética do Mito dos Vigilantes, escreveu:

[...] esses anjos, com inteligência, que fugiram do céu em busca das filhas de homens; de forma que esta ignomínia também se prende à mulher. De uma época muito mais ignorante (que a nossa) eles revelaram certas substâncias de material bem-ocultas, e várias artes científicas bem-reveladas – se é verdade que eles tinham revelado o manejo da metalurgia, e tinham divulgado as propriedades naturais de ervas, e tinham promulgado os poderes de encantos, e tinha revelado toda arte misteriosa, até mesmo a interpretação das estrelas – e particularmente às mulheres, eles comunicaram corretamente a arte instrumental malévola de ornamentação feminina, os brilhos de jóias como colares são combinados em diversas cores, e os braceletes de ouro, e produtos de tingimento com os quais a lã é colorida, e aquele pó negro, com o qual são feitos as pálpebras e cílios proeminentes. (De cultu feminarum ii.10,2-3).
 
Considerações Finais:

O corpo é o lugar onde fica escrita a história[5], nele a história deixa suas marcas. No caso das imagens encontradas nas tradições aqui citadas o corpo da mulher é perigoso e amedrontador, porque é causador de catástrofes cósmicas. Muitos outros textos da tradição testemunham como a parte da religiosidade judaico-cristã, mesmo não tendo raízes no Mito dos Vigilantes, culpou a mulher pelos males desse mundo, como o Testamento de Jó, Eclesiástico 25,24 e Vida de Adão e Eva. Para termos ideia, neste último encontramos a cumplicidade entre Eva e a serpente do paraíso. Por isso, tanto ódio contra a mulher e tudo que estivesse ligado ao feminino.

Referências Bibliográficas

BERGESCH, Karem. Violência Contra a Mulher – uma perspectiva foucauliana. In: MARG, J. Ströher (org). À Flor da Pele. Ensaios sobre gênero e corporeidade. São Leopoldo: Sinodal/CEBI, 2004.
   
CHARLES, R. H. The Book of Enoch or I Enoch. Oxford: Clarendon, 1912.

COLLINS, J.J. The Apocalyptic Imagination: an Introduction to the Jewish Matrix of Christianity. New York: CROSSROAD, 1989. 

COLLINS, J. J. The Apocalyptic Technique: Setting and Function in the Book of Watchers. In: Catholic Biblical Quarterly 44, número 1, p.91-111, 1982.

FLOOD, Michael (ed.) International Encyclopedia of Men and Masculinities. New York: Routledge, 2007. 

NICKELSBURG, George W. E., Apocalyptic and myth in 1 Enoch 6-11.In: Journal of Biblical Literature 96, número 3, p. 383-405, 1977

NICKELSBURG, George W. E. A Commentary on the Book of 1 Enoch, Chapters 1-36; 81-108. Minnapolis: Fortress Press, 2001.

NICKELSBURG, George W. E. and VANDERKAM, James C. 1 Enoch: A new translation. Minneapolis, Fortress, 2004.

REED, Annette Yoshiko . Fallen Angels and the History of Judaism and Christianity. The Reception of Enochic Literature. New York: Cambrigde University Press, 2005.

SEBASTA, J. L. Women’s Costume and Feminine Civic Morality in Augustan Rome. In: Gender e History 9/3, p.529-541, 1997.


TERRA, Kenner R. C. De guardiões a demônios: a história do imaginário do pneûma akátharton e sua relação com o Mito dos Vigilantes. 139p. Dissertação – Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2010.

VANDERKAM, J. Enoc and the Growth of an Apocalyptic Tradition. CBQMS 16. Washington, DC: CBA, 1984.

VANDERKAM, J. The Interpretation of Genesis in 1 Enoch. In: FLINT, P.W. (ed.). The Bible at Qumran. Text, Shape and Interpretation. Grand Rapids:CBA, 2000.

VANDERKAM, James C. Enoch, a Man for All Generations. Columbia: University of South Carolina Press, 1995.



[1] VANDERKAM J. Enoc and the Growth of an apocalyptic Tradition. CBQMS 16. Washington, DC: CBA, 1984; VANDERKAM J. The Interpretation of Genesis in 1 Enoch. In: FLINT, P.W. (ed.). The Bible at Qumran. Text, Shape and Interpretation. Grand Rapids:CBA, 2000.
[2] Para uma lista maia completa dos textos de Qumran que têm a presença do Mito dos Vigilantes ver: TERRA, Kenner R. C. De guardiões a demônios: a história do imaginário do pneûma akátharton e sua relação com o Mito dos Vigilantes. 139p. Dissertação – Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2010; VANDERKAM, James C. Enoch, a Man for All Generations. Columbia: University of South Carolina Press, 1995.
[3] CHARLES, R. H. The Book of Enoch or I Enoch. Oxford: Clarendon, 1912 (em especial o capítulo “The Influence of 1 Enoch on the New Testament”, p. 182).
[4] Ver. SEBASTA, J. L. Women’s Costume and Feminine Civic Morality in Augustan Rome. In: Gender e History 9/3, p.529-541, 1997. 
[5] BERGESCH, Karem. Violência Contra a Mulher – uma perspectiva foucauliana. In: MARG, J. Ströher (org). À Flor da Pele. Ensaios sobre gênero e corporeidade. São Leopoldo: Sinodal/CEBI, 2004.    

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

“Cuidado com Elas”. Misoginia Cósmica na Literatura Judaico-cristã (Part. II)




Com certa demora, post aqui a segunda parte da comunicação apresentada na ABIB.

Cuidado com a beleza delas! Desordem cósmica…

O Mito dos Vigilantes é a junção de duas tradições que no segundo século já pertenciam a uma única obra[1]. De acordo com o relato dos capítulos 6-11 de 1 Enoque (parte na qual está a versão mais antiga do Mito dos Vigilantes), um grupo de seres angelicais nomeados como Vigilantes se atraiu pela beleza das filhas dos homens e conspirou entre si sob a liderança de Shemihazah, com o propósito de possuir as belas mulheres. Com o contato com elas, os Vigilantes ensinaram a arte da metalurgia, da confecção de armas, da ornamentação (maquiagem, etc.), a arte da adivinhação, a magia, os encantamentos, a astrologia e o cultivo de raízes (1 En 8,1-3).  Ao terem relações sexuais com as mulheres foram gerados os gigantes, seres híbridos que comeram toda a alimentação da terra e depois os próprios seres humanos. Por isso, Deus envia o anjo Sariel para alertar Noé do iminente julgamento que virá sobre o mundo. Na sequência, o Senhor envia Rafael para prender Azazel, que é um dos líderes das hostes celestiais ao lado de Semihazah. Deus, também, envia Gabriel a fim de destruir, sem misericórdia, os gigantes (10,4-12).
          O mito se utiliza de linguagem simbólica para tecer críticas sociais e preservar a identidade judaica utilizando a figura da mulher e da sua sexualidade de maneira degradadora. O que gera toda desgraça do mundo, segundo o mito, e funda uma cultura do caos é a beleza da mulher. Como mostram os próprios nomes e as funções dos anjos, sua ausência no céu representava uma desorganização cósmica, gerando uma catastrófica calamidade! E o que os fez cair ou descer de lá? – A beleza das mulheres. Nas posteriores leituras, a figura da mulher e de sua sexualidade tornar-se-ão ainda mais perniciosas.   
          Os capítulos 12-16 de 1 Enoque já é uma releitura dos capítulos 6-11[2]. Nesses capítulos, uma nova imagem aparece. Com a morte dos gigantes, filhos das mulheres com os anjos, seus espíritos são liberados e transformam-se em espíritos malignos gerando uma vasta ploriferação de demônios (15,10-16,3). Esses tentariam a humanidade e causariam terríveis males. Aqui temos uma etiologia demoníaca em estreita relação com a mulher e sua sexualidade. Seu corpo e sua beleza são as causas da existência dos demônios.
          Como afirma J. Collins, o mito pode ser lido em momentos diferentes e aplicado em outras crises[3]. Na história da recepção do mito dos Vigilantes, novas imagens aparecem dando à narrativa novos contornos. Contudo, as figuras centrais são preservadas e a mulher é ainda mais demonizada.



[1] NICKELSBURG, George W. E. Apocalyptic and Myth , p.384.
[2] NICKELSBURG, George W. E.; VANDERKAM, James C. 1 Enoch: A new translation. Minneapolis, Fortress, 2004.
[3] COLLINS, John Joseph. The Apocalyptic Technique, p. 91-100.